Extradição e dupla
nacionalidade
Christiano Fragoso
Recente
informativo de jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (Inf.
309) traz alentada decisão monocrática da lavra do Ministro CELSO DE MELLO,
proferida nos autos do habeas corpus
n.º 83.113/DF, sobre questão de interesse para o direito extradicional.
Decidiu
S. Exa. que o brasileiro nato, ainda que possua dupla nacionalidade, não é passível de extradição. Como bem diz o eminente Ministro, a
circunstância de outra nação, por lei própria, haver reconhecido àquele
indivíduo nacionalidade originária não
descaracteriza o privilégio constitucional de inextraditabilidade
de brasileiros natos. Isto
se deve a que a Constituição Federal permite ao brasileiro deter outra
nacionalidade nos casos “de reconhecimento
de nacionalidade originária pela lei estrangeira” (precisamente a hipótese
em exame), ou “de imposição de
naturalização, pela norma estrangeira, ao brasileiro residente em Estado
estrangeiro, como condição para permanência em seu território ou para o
exercício de direitos civis”, cf. art. 12, § 4.º, II, alíneas a e
b, da C.F.).
A decisão é absolutamente
irrepreensível. Ora, se a lei
constitucional, nestas hipóteses excepcionais, faculta ao brasileiro possuir
outra nacionalidade, é evidente que a efetiva posse constitui legítimo
exercício regular de direito e, como a lei constitucional não difere, não pode
ser, de modo algum, fator de discriminação.
Se o indivíduo é brasileiro nato, ele será, perante nosso país, assim considerado para todos os efeitos
jurídicos, salvo se viesse a ser declarada a perda da nacionalidade (o que
ocorre se ele adquire outra nacionalidade fora das hipóteses
constitucionais).
MANZINI lecionava certeiramente: “Chi ha acquistato una
cittadinanza straniera senza perdere la
cittadinanza italiana (doppia
cittadinanza), comme può accadere specialmente
ai nostri emigrati in alcuni Stati dell´America,
è dalla nostra legge considerato cittadino italiano per ogni effetto giuridico. Lo stesso è di chi,
in caso di anessione territoriale, é divenuto cittadino italiano per mancata opzione della cittadinanza
straniera, conservando questa
cittadinanza a norma delle leggi dello Stato
estero.”
(Trattato di Diritto Penal Italiano, vol. I, ed. UTET, Turim, 1950,
p. 411).
A decisão do Min. CELSO DE MELLO
circunscrevia-se à hipótese de brasileiro nato
que detém dupla nacionalidade, uma vez que esta era situação jurídica da
Paciente naquele writ. É induvidoso, todavia, que tal solução
também vale para o brasileiro naturalizado:
ele não pode ser extraditado pela
simples circunstância de deter dupla nacionalidade. O brasileiro naturalizado somente pode ser
extraditado nas hipóteses constitucionais, que são taxativas e não podem ser
estendidas, seja por analogia, seja por lei ordinária.
No que toca à hipótese de dupla
nacionalidade, é irrelevante, em todo o caso, a circunstância de que a outra
nacionalidade do brasileiro seja a do Estado requerente da extradição.
Lamentavelmente, o Plenário não
apreciará o mérito do habeas corpus,
uma vez que as informações prestadas pelo Ministério da Justiça revelam que o
governo brasileiro comunicou à missão diplomática da República Portuguesa a
impossibilidade do atendimento do pedido extradicional,
recusando-se a encaminhar o pedido extradicional ao
STF, cf. Informativo n.º 314. Assim, o S.T.F., julgando questão de ordem, considerou prejudicado o
writ.
O Informativo do STF não deixa entrever
quais teriam sido as razões opostas pelo governo brasileiro para negar-se a
atender ao pedido extradicional. Espera-se que o v. acórdão do habeas corpus, que ainda pende de
publicação, contenha, neste ponto, informação pormenorizada.